terça-feira, 17 de setembro de 2013

Eu flor

                          Para LB e KS
Cor e perfume

Delicadeza ou exuberância

Nos cantos
Nos vasos
Nos campos

Rara, cara
Barata, comum

Para os enfermos e mortos
Para os apaixonados e felicitados

Morte certa.
Sem antes mostrar a que vim.

Inconfundível Beatriz Milhazes




terça-feira, 25 de junho de 2013

Figuraças

“Hoje eu acordei, olhei a vida e me espantei. Eu tenho mais de vinte anos, eu tenho mais de mil perguntas sem resposta”. Se me lembro dessa música é porque tenho bem mais de vinte anos. Quase quase o dobro. E face aos últimos 189 dias de “inta”, continuo me espantando com a vida, talvez por acreditar que, quando eu desencantar, não estarei mais aqui. 2013 tem se afigurado ainda mais emblemático, simbólico.
Afigurado. Simbólico. É isso! Nos últimos tempos, tenho lido muito, especialmente as pessoas: as que escrevem, por seus artigos, poemas, livros e posts facebuquianos que, ainda dizem, não devem ser levados a sério; as outras, por suas falas e atos. E eu as leio como figuras de linguagem.
Algumas são antíteses, para as quais em um dia os manifestantes são vândalos, no outro são ativistas: os opostos coexistem, em alternância (depende do que é mais conveniente a elas, talvez?).
Outras são paradoxos: seu modus operandi é defender-se atacando, amar destruindo, auxiliar cobrando, respeitar ofendendo, orar ignorando, exaltar desmerecendo, sorrir invejando, educar agredindo.
As hipérboles são as que se destemperam e perdem toda a classe e a razão em intermináveis ou calorosas – absurdas? – discussões pelo facebook. Ou ainda as que choram copiosamente com a constatação de que não têm – nunca terão! – o mundo “perfeito” vendido nas propagandas de margarina.
As silepses ocupam importantes cargos de comando, público e privado: a falta de concordância é explícita, mas elas tentam nos convencer de que o importante, o que vale, é o que está implícito.
Há ainda as metáforas: você nunca entende de imediato o que elas significam, mas é fisgado – às vezes sem perceber – pela magia contida em suas definições. E magia, mesmo para os negros, pode ser branca ou negra.
As gradações estão por aí aos montes. Umas começam na igreja e chegam à Comissão de Direitos Humanos, transformando impropérios (que não podem ser, por favor, religiosos, pois Cristo não é isso!) em liberdade de expressão, projeto de “cura gay” em proteção ao trabalho do psicólogo (oi??). Outras há que começam numa discussão – desimportante, apregoam – sobre brinquedos e a questão de gênero na educação infantil para desembocar, “filosoficamente”, na grotesca imagem das “bonecas de quatro”.
Porém as mais intrigantes (perigosas?) são as ironias: elas nunca, nunca são o que parecem ser, são sempre o oposto. Não está nelas o problema, que as melhores são, inclusive, refinadíssimas, mas em nós que não as percebemos e as acolhemos ou rechaçamos sem efetivamente tê-las compreendido.

E para quem acha que estudar figuras de linguagem é meramente identificá-las, um alerta fundamental de qualquer teoria linguística: de nada adianta classificar uma figura de linguagem se não se compreenderem os efeitos de sentido que ela provoca. Leiam-me, nesse ponto, literalmente.   

terça-feira, 18 de junho de 2013

O presente de Cauã

     Em 16 de junho, o mais novo tesouro da família Pereira (e Ribeiro de Souza) comemora outonos de vida. Quatro em 2013.
     ¾ Irmã, de que o Cauã precisa?
Cauã, tia-dinda, Sonic e É gol!
     ¾ Calça jeans. Como criança perde roupa rápido!
     ¾ Cauã, o que você quer ganhar de aniversário?
     ¾ O Sonic vem na minha festa. O Homem-aranha e o Homem de Ferro vão trazer ele.
     A tia-dinda, professora da família, obviamente dá livros. Mas o que eu queria mesmo era dar um mundo. O mundo.
     Um mundo sem mazelas de qualquer ordem. Sem drogas, concretas e abstratas. Sem politicagem, politiquices, corrupção. Sem violência, que toda ela é sem razão. Sem pobreza monetária e de espírito. Sem poluição sonora, visual, ambiental. Sem descumprimento dos deveres. Sem hipocrisia.
     Um mundo com benesses. Com amor absoluto, sem precisar de adjunto ou complemento. Com boa educação – familiar e escolar. Com consciência da diversidade (étnica, sexual, religiosa...), pois é, enfim e apenas, o que iguala um ser humano a outro (Tirem as vendas, por favor, senhoras e senhores!). Com garantia de direitos. Com respeito.
     Utopia – ingênua, piegas, podem dizer! -, pois “mundo sem” e “mundo com” coexistem, se alternam, evoluem, recrudescem.
     Então, se toda moeda tem duas faces (bendito maniqueísta clichê), que Cauã seja amoroso, consciente e respeitoso, para contribuir com o “lado bom”, mas forte e corajoso para lutar contra o “lado ruim” (perdoe, Yoda, mas não posso, por razões melanínicas, usar “lado negro da força”, não no “seu” sentido!!).  

     E que eu, querido sobrinho, não lhe deseje apenas um futuro, mas comemore seu presente. Do indicativo. E também no gerúndio.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Fui eu! Fui eu! Fui eu! (ou Clichês e Contexto)

[23h] [eles]

¾ Eu devia te colocar pra fora de casa hoje! Mas eu vou te dar uma chance: quem sabe uma noite no sofá refresca a sua memória?
¾ Mas eu...
Blam! Bate forte a porta do quarto. 

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¾ Eu juro que não sei como isso aconteceu. Eu não fiz nada. Você é o único amor da minha vida. Eu jamais te traí, nem te trairia, ainda mais agora, que estamos tão bem: casa nova, emprego novo...
 
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[19h30] 

     ¾ Ei, o que é isso? (desatando-se bruscamente do abraço). Não acredito! Quem é ela? Que cara de pau! Como você pôde fazer isso com a gente? E nem tentou esconder. Queria mesmo que eu pegasse? É isso? Nossa história termina assim, nesse descaramento? 

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[14h] 

¾ Aí, hein, cara?! Gostei de ver! O amor se espalha no ar! Pra quê vergonha, né, não?!
¾ ???
¾ Só não vai perder totalmente a compostura, viu? Conselho de amigo: você é novo no emprego, não exagera na descontração.
¾ Mas, como assim? Sobre o que você
¾ Sem crise, cara! Tô julgando não. É só um toque. Valeu?! Fui!
¾ ??? 

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[09h]  

     Por que será que elas estão agindo assim? Essas risadinhas, alguns olhares duros, questionadores, outros parecem... insinuantes! Não, é loucura minha. Mas, e eles? Mal os conheço, por que esse olhar tão cúmplice? Droga. E como é que faz essa planilha mesmo?  

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[06h40] [eu] 

     “Próxima estação Sé. Acesso à Linha 1 – Azul. Desembarquem pelo lado esquerdo do trem.” 

     Qualquer comparação que se faça – lata de sardinha, pau de arara, estufa de granja, carro de boi (sem lirismo, Rosa!) - é válida, mas insuficiente. Insuportável? E como conseguimos passar por isso todos os dias? Não conseguimos: estamos submetidos aos empurrões, cotoveladas, pisões, apertos, calor, capacidade máxima de lotação, velocidade reduzida, maior tempo de parada. Todos os dias. Às caras feias, aos xingamentos, às (quase) brigas, à falta de educação. Todos os dias.
     Mas hoje foi muito pior. Praticamente sem tocar os pés no chão e sem alcançar barra de apoio horizontal ou vertical, quando o mar de gente irrompeu, fui lançada com tal violência que, por milésimos de segundos, senti-me voando... direto a um colarinho azul-celeste impecavelmente engomado. Ei, moço! Ele nem me ouviu.
     E lá se foi, sabe Deus para onde, meu beijo involuntário no dia de estreia do vermelho terroso...  

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Nêgo de Deus!


Lindos cabelos loiros e olhos de um azul profundo. Usava uniforme. Mediu-me de cima a baixo e disse que eu não poderia ficar ali, onde era a entrada principal da loja, dessas grandes, de roupas e outros acessórios. Eu lhe disse que estava apenas aguardando um japonês amigo meu, que me ajudaria nas compras, porém ela me “orientou” a ficar em outra entrada, de serviço, daquelas que você tem de sair para a rua, dar a volta, entrar em um beco escuro. Era noite sem lua. Tive medo e, quando vi, eu já estava correndo, descalça, em uma estrada ladeada de mato alto. Meus pés doíam, meu coração apertou, quase perdi o ar.
Com bem menos elementos oníricos, já vivi essa situação várias vezes e sempre foi muito chato, embora no começo, quando eu não sabia lidar com isso, era muito pior. Como dizem que o problema geralmente não é o que você sonhou, mas por que, logo pensei que devia ser por causa de um tal Marco Infeliz que está em voga nos últimos tempos. Mas era manhã do domingo de Páscoa (o último dos meus “inta”) e a lembrança mais forte da semana era de minha tia-avó, que seguia à risca o ritual católico e nos levava junto com sua fé.
A Tina foi uma dessas pessoas que “teve o azar de ser negra”. E mais: mulher, pobre, nascida no interior de Minas, na década de 20 do século XX. Nunca vou me esquecer das histórias das primeiras casas em que trabalhou, lá pelos 5, 6 anos de idade: as “patroas” prometiam à sua mãe que a pequena ajudaria nos afazeres domésticos durante um período do dia e no outro seria levada à escola. Ela nunca pisou em uma escola. Comia os bicos de pepino e outros restos que furtivamente escondia ou pegava do lixo, porque “negro é animal”. Aos fins de semana, quando voltava para a casa paterna, silenciava ante as ameaças que havia recebido e o medo de decepcionar seus pais. Ouvi tantas vezes essas histórias, que parece que ela está aqui ao meu lado, contando-me mais uma vez: não é para você ficar triste. É para saber que isso hoje não acontece mais, mas muito ainda precisa ser feito, e tudo começa no estudo.
  Filha de mãe quase beata e pai kardecista, Tina escolheu o caminho do sincretismo, inicialmente da Umbanda e do Catolicismo. Mas no entra-e-sai na nossa casinha de tijolo sem reboco, convivi com maristas, padres, evangélicos, budistas, judeus... Aconselhamentos mútuos, trocas de receitas culinárias, tomada de decisões, orações, lembranças de outros tempos, tudo à volta do cafezinho com biscoito-trança (cuja receita perdeu-se nalguma mudança minha!)
 Pois essa mulher-negra-pobre, que aprendeu a ler com a ajuda das filhas das patroas da adolescência, que fez de tudo para que eu não trabalhasse antes dos 16, mesmo com todas as dificuldades que tínhamos (lugar de criança é na escola, sem estudar, não se é nada na vida), é o maior exemplo que tenho até hoje de coragem, honestidade e justiça. Demorei muito a entender a necessidade – e perder a vergonha! – de voltar ao açougue, com o pacotinho de meio quilo de carne, e dizer Moço, isso não é acém, eu pedi carne de segunda, não sebo e restos!
Se o que trago em mim hoje é herança de uma “terra amaldiçoada” (que bíblia é essa, meu Deus?) ou “azar”, Vossa Excelência nunca deve ter entendido o que “dizem” os versos “deve ser legal / ser negão no Senegal”. E só um aviso: hoje meus pés não doem, meu coração infla e o ar me sobra.  
Janeiro de 1995: ingresso na USP

sábado, 9 de março de 2013

Diaba Magreza, Santa Saúde [ou o Dia Internacional da Mulher nos 298 dias dos "inta"]


Salve, Magreza, mãe da Finura, manequim 36, o docinho? A academia nossa salva! A vós bradamos, as ansiosas filhas da Gula (e do Estresse). A vós suspiramos (mais açúcar!), comendo e sofrendo nesta deliciosa churrascaria [e pizzaria e pastelaria e rotisseria e padaria]. Ide-vos, pois, inquisitora nossa, esses vossos olhos acusadores de nós desviai, já que nos afastar da obesidade mórbida não pode significar deixar-nos anoréxicas. Ó balança, ó cintura, ó colesterol, que o Equilíbrio reine.
Rogai por nós, Santa Saúde, para que sejamos saudáveis e felizes com nossos quilinhos. Amém!

Post Oratio: mulheres, na boa: depois de queimarem o sutiã, virarmos escravas da magreza é o fim da picada!

sábado, 2 de março de 2013

Escrever


Eu quis escrever sobre o primeiro fim de semana do último ano dos “inta”. Eu pensei em escrever sobre o primeiro almoço de família dos 39 anos. Eu quase escrevi sobre o segundo casamento de meu pai, exatamente 40 anos depois do primeiro.
Eu deveria escrever sobre os primeiros dias de aula do 3º. ano, com alunos, que, pela primeira vez, desconheço totalmente, já que não mais sou professora do 1º. ou do 2º. ano. Eu poderia ter escrito sobre uma oficina ministrada por um admirável colega “profepesquisador”, momento raro em que toda a equipe de professores de português pudemos trocar ideias e experiências sobre nossa prática, angústias e futuro.
Eu me imaginei escrevendo sobre a primeira (que seja a última!) botinha de gesso do meu sobrinho e minha crise por não ter conseguido vê-lo, sufocada que estava (estou?) pelo trabalho.
Eu precisava escrever sobre os desrespeitos que sofri, neste plural estranho como foram as situações e talvez mais ainda precisasse escrever sobre como lido com as desculpas (sou boba por aceitá-las?).
Eu desejei escrever sobre o carnaval na montanha e meu banho de cachoeira há muito adiado. Eu ainda quero escrever sobre as amizades novas e antigas, mas que igualmente me pressionam, intimam e ameaçam por não terem, como quereriam, minha companhia.
Vista do Conservatório Dramático e Musical de São Paulo
Eu ainda posso escrever sobre o dia de hoje, uma pausa – mesmo forçada – na lufa-lufa da rotina do trabalho para, com três companheiras de magistério, revisitar Mário de Andrade em sua Pauliceia muito mais desvairada.
Eu ainda preciso escrever uma linha por dia não destinada apenas a enviar imêis, produzir provas, listar itens que se acumulam sem serem “ticados” ou fazer anotações – muito esparsas – para a dissertação de mestrado.
    Eu ainda vou escrever sobre meu medo de um dia acordar e, não me lembrando mais de nada, não ter quem me leia minhas memórias ou, bicho-papão maior, não ter registro de minhas lembranças.