quinta-feira, 23 de março de 2017

Ouvido na Rampa

Em tempos não muito distantes, na era do Orkut, havia uma comunidade chamada “Odeio a rampinha da Bresser”. Isso só me chamou a atenção porque eu estava, naquele ano de 2005, de mudança para a Mooca, exatamente para a
Foto de Lourdes Siracuza Cappi
rua do metrô Bresser, hoje Bresser-Mooca. Tempos mais tarde, fui descobrindo que há controvérsias quanto ao nome do bairro, ou melhor, de em que bairro está a minha rua: para alguns, ainda é ou “é só” o Brás, com seu intenso comércio, em muito irregular; para outros, tão Mooca como a rua Juventus ou “qual a diferença com a Rua Cassandoca?”. Sem ser leviana, acho que posso dizer que há uma espécie de luta de classes velada dentro do próprio bairro.
Fato é que, cidadão mooquense ou não, se sua via de chegada à região for o transporte metropolitano, você há de descer a rampinha da Bresser (e depois subir!). Saindo à direita da catraca, destino à Radial, literariamente chamada de Alcântara Machado (imaginou ele o efeito que surtiria Brás, Bexiga e Barra Funda?), são três lances de rampa, com a opção de o terceiro ser uma escadaria. Se seu destino não for visitar um parente ou trabalhar no comércio ou nas poucas fábricas ainda existentes, você deve fazer parte de um dos quatro povos frequentadores diários do bairro.
O povo de branco chega/sai sempre na hora da troca de turno principalmente do Hospital Salvalus, em reforma e ampliação há quase uma década, tempo em que a camada fina de poeira de construção toma conta do meu lar e, pior que isso, o meu nascer do sol foi roubado pelo porcelanato e pela vidraçaria do arranha-céu duplo que substituiu o simpático sobradinho da Maternidade do Brás. Progresso, senhores, claro. A esse povo, juntam-se também visitantes e pacientes de outros hospitais especializados em câncer de mama ou em olhos-ouvidos-boca-e-nariz. Nada de brincadeira de criança.
O povo de Deus tem vários caminhos a escolher, se bem que eu preferiria um culto ecumênico. As católicas Renovada e Nossa Senhora dos Ferroviários, com a linha do trem estrategicamente ao fundo. A Congregação Cristã com suas lojinhas de instrumentos musicais e véus ao redor, fora o forte esquema – particular - de segurança e controle de tráfego em dias de grandes eventos. Uma Academia Maçônica, sociedade tida como secreta, mas autoadjetivada como discreta. O Centro Espírita Ubiratan, com filas na porta, aos fins de semana, de não-abençoados pelo mesmo dinheiro de alguns que, na esquina, podem comprar um quilo de carne. E que geralmente atravessam a rua para... ”nem chegar perto!”
O povo da “facul” vem apressado. O da esquerda atrasado para pegar o “Paidebarru, paidebarru terminal”, apregoado pelo cobrador do lotação, já saindo do ponto de ônibus. Alguns preferem economizar e optam pela caminhadinha que, antes de cruzar a Radial e margear o Parque da Mooca, deve atravessar a “população em situação de rua” do Centro de Convivência do Viaduto Bresser, que “insiste em tornar o nosso bairro mais pobre e feio” (agora é “nosso bairro”, vizinha?) e que “não sei para onde devem ir, mas aqui não é o lugar!!” (ordena a voz que sai do nariz tapado indiscretamente). Os da direita não têm opção: só chegam a seu campus caminhando. Ambos, porém, em algum momento, ou em quase todos, param nos bares, de onde aos risos escutam o sinal das aulas, sem que a cerveja, a vodka ou o uísque, de segunda a sexta, tenha terminado. Mas invariavelmente, a partir das 22:30, animados, todos sobem a rampinha de volta aos lares.
O povo do telemarketing é o mais recente e também o mais mutável: nada garante que quem você conheceu hoje, comprando salgadinho e cigarros no boteco da esquina, esteja aqui amanhã. Dizem ser altamente rotativo esse setor. Que seja porque tenham encontrado ocupação melhor, espero!
Aos invariáveis sorrisos das crianças da Apae em suas cadeiras de roda, contrastantes geralmente com o semblante preocupado de suas mães, somam-se os camelôs com seus guarda-chuvas saídos não sei de onde, nos primeiros minutos dos pingos, ou ainda aqueles especializados em capinha e carregador portátil de celular, ou a mais nova febre, o atrevido pau-de-selfie; as banquinhas de frutas, açaí, tapioca ou os carrinhos de pipoca, milho verde cozido e de espetinhos cuja fumaça se mistura aos perfumes todos. Os sotaques são paulistas, nordestinos e agora haitianos, “mais uma raça que veio tirar nosso emprego” (eu não sabia que você trabalhava de camelô, querida...).
Oxalá que o ódio à rampinha fosse apenas devido ao esforço empreendido para subir a rampa ou à inevitável e às vezes longa espera para as águas baixarem quando da tempestade que torna a rua um rio. Que prevaleça o cotidiano e belo pôr-do-sol que poucos observam ou a cena única da mulher com a trouxa na cabeça, tal “lata d’água na cabeça, lá vai Maria”. Eu subo o morro, mas me canso do que ouço, Maria. Me canso.


Publicado originalmente em Eu nunca tinha passado por aqui, org. por Marília Oliveira, 2015.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Às moças altas do metrô

Desculpe, moça, por ter me desequilibrado e esbarrado em você. 
Desculpe, moça, por não ter sido veloz no pedido de desculpas, pois você foi mais rápida ao reclamar que, se eu não me segurasse, você não me seguraria.
Desculpe, moça, por na minha ingenuidade (inferno de característica!), eu ter me justificado: não alcanço o balaústre central desses trens novos.
Desculpe, moça mais alta, por não ter um braço longo como o seu, e por favor entenda que nem mesmo esticando-o, como você irônica ou cruelmente "sugeriu", eu alcançaria.
Desculpe, moça, por eu ainda ter lamentado o incidente e ter pedido calma a vocês, cujos olhos não cruzaram os meus em momento algum.
Desculpe, moça, por ainda ter pedido para que começássemos bem o dia, pois "não tá fácil pra ninguém". Não se perdoa um clichê.
Desculpe, moça, por eu ter chorado, ali na frente de todos.
Desculpe, moça, não foi por sua causa (são as eleições aqui e lá, os professores-alunos-pais-gestores em conflito, as chuvas e falhas no metrô desde ontem-sempre, as incoerências do universo público e particular...).
Desculpe, moça, por eu ter me afastado e procurado em que me apoiar.
Desculpe, moça, por me sentir doente com e pelo mundo.

Desculpe, moça, por talvez não ter compreendido que você também estava sofrendo.

Ps: obrigada, outra moça, que me ofereceu seu lugar-atenção. 

São Paulo, linha azul, 7:05 da manhã, atrasada.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Ah, pai!

Para LP

Tantas fotos lindas em que estamos sempre abraçados, sorrindo ou gargalhando e eu escolho essa antiga, embaçada, quase desbotada. Por que, pai? Porque nela alguém flagrou um dos melhores e mais especialmente comuns de nossos momentos: você me ensinando algo daquele seu jeito nada convencional.

Você nos assaltava assim que pisávamos em casa ou quando acordávamos no domingo: “Qual a capital do Acre?”, “Quais as cores da bandeira da Turquia?”, “Sabia que existe um país muito menor que a extensão do estado de São Paulo?” O atlas muito bem cuidado nas mãos, ofertando a nós um mundo que só assim você conhecia.
Quando não era a geografia da escola, era a das revistas, especialmente a extinta Caminhos da Terra, com a qual, entre empolgado e abismado, você descobria uma temperatura ou solo que só existia no lugar X; um povo datado de antes de antigamente ainda existente no lugar Y; uma tartaruga pré-histórica vivente no lugar Z. E mostrava a foto. E lia o texto. E ficava parado, pensando? E dizia que um dia sua nave viria resgatá-lo, porque você não é desse mundo! Ah, pai!
Talvez eu tenha herdado de você o gosto pela fotografia – o gosto, não a técnica! -, de uma época em que se tinha de pensar muito para tirar uma foto, pois filme caro e revelação idem. Filme de 36 poses era luxo só. Lembra quando me ajudou em um trabalho do magistério ou da faculdade? Saímos por Sampa clicando vários lugares e pessoas, mas, quando retiramos o filme da máquina ele não havia rodado... E em uma outra vez, quando o moço da Fotóptica veio desolado com o rolo todo preto, sem nada nada? Depois de perplexo-triste-bravo, você soltava alguma pérola engraçadinha para não repetirmos o erro na próxima vez. Ah, pai!
Essas alegres descobertas, as bobagens faladas como sérias e o humor tonto das histórias em quadrinhos lidas e contadas aos risos são minhas melhores lembranças, mais que a casmurrice, as proibições (in)fundadas na tradição, as doenças que lhe acometeram tão cedo (ou seriam as passagens de sua nave por essa Terra?), os longos períodos de silêncio na postura d’O Pensador (e a Tina dizendo “deixem seu pai em paz conversando com os botões dele”. Se eu pudesse, entrava lá no seu quarto correndo e jogava aqueles chatos botões pela janela! Só bem mais tarde, na terapia, renomeei aqueles botões...).
Dos seus completos 6.4, em quase 4.3 aprendi a entender seus silêncios, mas também o vi mudar muito, falar mais (até mesmo ao telefone!), posicionar-se (ainda que com esforço), comemorar (comedidamente), desejar (quase por descuido), sentir-se merecedor de (mas ainda assim chorar ao agradecer). Ah, pai! Aceite. E vá além, por favor! E que sua nave tenha definitivamente esquecido você aqui. “Pelo tempo que durar”.
     
 Níver do pai, 29-08-2016

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Acordar

Sem relógio: escolha?
Sem dor: prevenção.
Sem angústia: morte!
Com amor: entrega...

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

A encantadora de flores

     A criança procurava uma flor para presentear a mãe. Uma não, a flor, com A Gigante e um F que ela nem aprendera ainda a fazer.
     Disseram-lhe para buscar a flor mais bela, a rosa amarela.
     Acenou para as vermelhas, desviou das azuis e a amarela convidou:
     ¾ Rosa amarela, flor mais bela, posso levar você pra minha mãe?
     ¾ Mais bela, eu? Não, querida criança, há outras tão belas quanto eu. Por que não tenta uma mais nobre, a orquídea?
     Brincou com os lírios, mergulhou nas tulipas e a orquídea reverenciou:
     ¾ Orquídea, flor mais nobre, posso levar você pra minha mãe?
     ¾ Mais nobre, eu? Não, querida criança, há outras tão nobres quanto eu. Por que não tenta uma mais forte, a boca-de-leão?
     Pendurou-se na primavera, lutou com os antúrios e para a boca-de-leão rugiu:
     ¾ Boca de leão, flor mais forte, posso levar você pra minha mãe?
     ¾ Mais forte, eu? Não, querida criança, há outras tão fortes quanto eu. Por que não tenta uma flor mais singela, a flor do campo?
     Saltitou as boninas, acariciou as violetas e para a flor do campo sorriu:
     ¾ Flor do campo, flor mais singela, posso levar você pra minha mãe?
     ¾ Mais singela, eu? Não, querida criança, há outras tão singelas quanto eu. Por que não tenta uma flor mais viçosa, o girassol?
     Bebeu no copo-de-leite, dançou com a gérbera e o girassol circundou:
     ¾ Girassol, flor mais viçosa, posso levar você pra minha mãe?
     ¾ Mais viçosa, eu? Não, querida criança, há outras tão viçosas quanto eu. Por que não tenta uma mais perfumada, o jasmim?
     Cheirou o lisianto, encantou-se com a camélia e com o jasmim se deliciou:
     ¾ Jasmim, flor mais perfumada, posso levar você pra minha mãe?
     ¾ Mais perfumada, eu? Não, querida criança, há outras tão perfumadas quanto eu. Por que não tenta uma mais eterna, a sempre-viva?
     Embolou-se com a hortênsia, cantou com a estrelítzia e com a sempre-viva dengou:
     ¾ Sempre-viva, flor mais eterna, posso levar você pra minha mãe?
     ¾ Mais eterna, eu? Não, querida criança, há outras tão eternas quanto eu. E nenhuma na verdade é. Nem nada é eterno, meu pequeno.
     O menino voltou para casa pensando florido. Pegou o papel mais lindo que tinha e com as cores todas desabrochou ali todas as flores que encontrou, todas as que imaginou. E dormiu no perfume delas. Quando a mãe chegou, viu o próprio rosto naquele desenho do filho. E das mãos da mãe rebentaram botões de uma flor ainda não nascida.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Discurso (in)direto

Não costumo divulgar minhas preferências partidárias na política. É apenas um direito meu o de não me manifestar. Isso não lhe dá o direito de me acusar de alienada, embora você possa julgar que eu não tenha preferências. Isso é direito seu. Respeito.
Não costumo estampar camisetas dizendo “não votei em...”, porque se quem ganhou não foi meu candidato ou minha candidata, o que importa é como agirei a partir de então. Humilhar você ou insistir no “eu te disse” não é um princípio meu. Eu não preciso aceitar sua opinião. Eu a respeito.
Não costumo me expressar e dar as costas, porque se falei, quis audiência; se consegui audiência, fui ouvida. Isso não dá o direito à plateia de me agredir, embora ela possa sim se expressar a mim. É um direito dela. Respeito.
Não costumo brigar pela minha candidata ou pelo seu candidato. É direito meu o de escolher (não) panfletar, (não) segredar ou (não) silenciar. Também é um direito seu. Isso não nos dá o direito de nos ofender mutuamente, embora um possa querer tentar convencer o outro a mudar de ideia. Respeitemo-nos.
Não costumo ofender amigos e familiares no Facebook, “desfazer amizades”, desativar a página, ordenar que meu oponente não se manifeste, censurando-o, cerceando-o. Lidar com a diferença é natural para mim, o que não significa que eu não me sinta atacada, nem que meu silêncio seja submissão. É antes vigília. E quando acho necessário falar, falo ou agir, ajo. A minha presença, tal pedra no meio do caminho ou flor no asfalto, sempre foi e é minha arma contra o que me impingem nos rótulos que me dão: mulher, preta, pobre, suja, descabelada, ingênua, professora...

Acredito que as opiniões diferentes são constituintes do sistema democrático. Acredito que o respeito a elas mantém o diálogo, que em sendo diálogo, é civilizado. Não acredito que gritos reais ou virtuais sejam argumentos, mas sei que eles machucam. Defendo que discurso de ódio não é liberdade de expressão.