Creio na concentração toda-poderosa,
criadora da disciplina para escrever a dissertação; e na inteligência, sua
companheira, minha aliada; que pode não ter sido concebida comigo, mas nasceu
num cantinho do meu cérebro; estimularam na infância, foi desenvolvida,
alimentada e reconhecida; às vezes falhou, quis dormir por três dias, quase
subiu no telhado; está à direita do computador, na pilha de livros do mestrado,
de onde me chama cada vez que respiro. Creio na compreensão de minha família,
em mais uma dose de paciência de meu amor, nos amigos que por ora se sentem
abandonados, nos convites que voltarão a ser aceitos, nos feriados (daqui a
seis meses!) que enfim poderão ser aproveitados, na minha vida de volta. Amém.sábado, 1 de março de 2014
Credo, dissertação!
Creio na concentração toda-poderosa,
criadora da disciplina para escrever a dissertação; e na inteligência, sua
companheira, minha aliada; que pode não ter sido concebida comigo, mas nasceu
num cantinho do meu cérebro; estimularam na infância, foi desenvolvida,
alimentada e reconhecida; às vezes falhou, quis dormir por três dias, quase
subiu no telhado; está à direita do computador, na pilha de livros do mestrado,
de onde me chama cada vez que respiro. Creio na compreensão de minha família,
em mais uma dose de paciência de meu amor, nos amigos que por ora se sentem
abandonados, nos convites que voltarão a ser aceitos, nos feriados (daqui a
seis meses!) que enfim poderão ser aproveitados, na minha vida de volta. Amém.sábado, 15 de fevereiro de 2014
Criança na chuva
Para PB
Chap chap fazem meus tênis
coloridos
Chuá pra cá, chuá pra lá, chuá
em mim
A luz recorta a nuvem
Quem está fazendo bagunça no
céu?
Chuá pra cá, chuá pra lá, chuá
em mim
Gelinho do céu no peito, na
terra, na boca
Árvore que dança e pinta a água
de folhas
Chuá pra cá, chuá pra lá, chuá
em mim
A água me lava ou me leva?
Chap chap fazem meus
pensamentos coloridos
Chuá pra cá, chuá pra lá, chuá
em mim
Em casa, a mãe não ralha:
A toalha me abraça.
segunda-feira, 30 de dezembro de 2013
Último dia de “inta” ou “Pede e serás atendido”
Há muito que escuto a frase “Cuidado com
o que pede, pois você pode ser atendido”. A sensibilidade que desejei para 2013
veio plena, hiperbólica.
As minhas dores e as minhas alegrias me
rasgaram na mesma intensidade. Descobrir que o que me acometia há mais de um
ano não era o fígado ou o estômago, mas a minha vida “apenas” foi um paradoxo:
impossível negar a tristeza pelo ritmo de vida massacrante, detonador de minhas
dores, com a felicidade por não entrar na faca como eram os melhores prognósticos.
Nem sempre consegui lidar com tudo, mas agradeço as inúmeras vezes em que
apenas me permiti sentir.
Devo ter falhado muito, mas sinto que fui
mais sensível ao outro e suas dores e queixas. Perdoem, queridos amigos, as
ausências às vezes mais com um que com outros, não é por gostar mais ou menos;
não é a distância; não são os diferentes interesses (sempre há ao menos um em
comum com dada um dos diversos núcleos que hoje reconheço fazer); não é a idade
(amo dos quase “inte” aos de “enta”); não são as opções políticas, tampouco as
posturas frente às “minorias”, aliás, me acusam de, em sendo veemente na defesa
de minhas ideias, ser igualmente tolerante com os contrários. Outro paradoxo.
Gente, não é nada, é a minha vida “apenas”. Que eu tenha ajudado quem precisou,
se não por minhas mãos e palavras, encontrando quem o fizesse melhor. Nem sempre
consegui lidar com tudo, mas agradeço as inúmeras vezes em que apenas me
permiti sentir.
Quanto ao planeta, até podemos estar mais
sensíveis, todavia, parece-me faltar mais ação, individual e coletiva. Minhas
ervas morreram. Tenho vizinhos que ainda não reciclam o lixo, mesmo com a
coleta seletiva no prédio. Deveria ser o mínimo, não? Fora o desperdício
generalizado. Nem sempre consegui lidar com tudo, mas agradeço as inúmeras
vezes em que apenas me permiti sentir.
A tecnologia, inegável, foi uma aliada e
muitas vezes ponto de partida para o mundo “real”: mesmo com toda a correria e
restrições impostas, acho que nunca foram tão significativos os abraços
curtidos, os cafezinhos e as pizzas compartilhados, as salas de estar acessadas
– e os belos jardins em diferentes versões, literal e conotativamente. Podem não
ter sido muitas, mas todas as vezes em que nos permitimos sentir, juntos, foram
intensas as boas risadas, a troca de palavras de apoio, os choros, os
silêncios.
...
Aos que acompanharam minha jornada “rumo
aos ‘enta’”, agradecida. Foi muito mais que ao menos uma linha escrita por dia:
foram sentimentos e ideias que me permiti dizer, escrever, publicar e outros
tantos que ainda não tomaram forma, mas têm 6 décadas de “enta” para se palavrarem.
sábado, 7 de dezembro de 2013
Ensaio para a vida
Não tenho direito
de, autoridade ou competência para fazer crítica teatral. Se me perguntarem
sobre luz, figurino, atuação, fico limitada a gosto/não gosto, achei bom/achei
ruim. Mas penso que posso falar de histórias. Vividas e inventadas. E de
personagens.
Na última
terça de novembro, o Teatrando encerrou a temporada do “Na madrugada”,
espetáculo teatral – e musical (Ave, Cazuza!) – em cujo elenco encontrei
(ex)alunos. Um feliz encontro tardão, não cedinho como de costume. E diferente
do costume também foi vê-los, ouvi-los ali, transformados, transfigurados. Essa é a voz dele? Que gesto este dela!
Mas voltemos à ficção.
O enredo
poderia ser o de muitos filmes, seriados de hoje ou dos anos 80: a esticadinha
de um grupo de adolescentes após o baile de formatura. Poderia ser só isso, ou
clichê, ou caricato ou bobíssimo até. Mas aquele encontro de jovens, que
consomem quase todo o bar da anfitriã, vai se transformando aos poucos, se
intensificando madrugada adentro. As palavras, os olhares e os gestos vão nos
dando pistas dos dramas individuais e coletivos intrincados.
Como no
ritual dos bailes de formatura, vão se apresentando aos poucos cada personagem.
Laura, a anfitriã de primeira viagem, tão insegura que chega a se surpreender
com a chegada dos amigos que ela mesma convidou. Alice e Caetano, inusitado
casal de amigos, ele certinho, boa gente e ela quase guerrilheira, deslocada naquele
grupo, mas nem tanto quanto pensa. Karen e Luís Guilherme, o casal que,
preconceituosamente, poderia ser renomeado como Patricinha e Mauricinho.
Dispensariam, pois, maiores caracterizações, não fosse o despertar da princesa
Karen para o mundo real.
E como a
noite nunca tem fim, conhecemos ainda um quase trio e uma dama solitária.
Ingrid, a amiga fiel, com doçura oposta aos tensos gestos de quem guarda um
segredo (ou mais?); Elis, acusada de tudo, vítima do inexorável; Cauê, o (ex)namorado
de Elis, perturbado por aquilo que ela não conta...E Paloma, a mais “velha”, sensualmente
misteriosa, desejosa da íntima verdade.
Todos
querendo ver no escuro do mundo, precisando dizer que amam. Para a noite sem
fim da vida breve, só mais uma dose.
terça-feira, 3 de dezembro de 2013
Não me durmas
Eu não quero
dormir contigo hoje, amor. Não quero teu corpo, teu calor, teus afagos. Não
quero tuas palavras – poucas, mas brandas -, nem teu semblante acolhedor,
tampouco tua óbvia constatação de “vai passar”. Não quero tua conversa sobre
outro assunto para me tranquilizar. Não quero nem o riso, nem o gozo. Hoje não
quero o desvio, amor.
Queria não
ter de trabalhar amanhã. Não ter de honrar meus compromissos. Não ter
compromissos. Não ter precisado daquele açúcar de agora há pouco, para apenas
adiar a explosão aqui de dentro, que não poderia ser pública (e por que não,
amor?). Queria não ter filtro, papas na língua ou discernimento.
Quero hoje a
história da humanidade, sua pior parte. Quero os maus pensamentos, os piores
sentimentos. Quero essa dor, amor, dos livros, na memória reavivada, no peito
angustiado, no coração dilacerado. Se eu a sentir a noite toda, será que ela
acaba, amor? Se eu pensar nela, só nela, será que a aceito, amor? Será que ela
me toma? Será que enfim encontro minha crueldade, amor? Será que enfim fico
igual a meu irmão mau? Será que enfim a perplexidade deixa de existir em mim,
amor?
Não quero
dormir. Pois se durmo, sonho. Depois que sonho, acordo. Nada ou quase nada
lembro. E o dia recomeça, como sempre, mais igual que diferente. E a rotina,
amiga, me leva para o necessário, para o que basta, para a dor cotidiana. Não
esta que tenho agora, amor, esta que quero agora, esta de que preciso agora.
Quero só por
hoje não ter esperança. Quero só por hoje desacreditar no humano. Quero só por
hoje não ter amor. Quero só por hoje não saber de Deus. Quero só por hoje ser
nada. Quero só por hoje não ser gente. Quero só por hoje o vazio. O meu vazio.
Posso, amor?
segunda-feira, 2 de dezembro de 2013
Quase conto, quase terror
Ele havia
lido no manual que deveria mastigar bem, mais de 50 vezes, as pessoas más. Não
poderia sobrar grão, mas pó. Não poderia sobrar creme nem caldo, saliva apenas,
que se evaporasse antes de escorrer pela barba.
Porém, o
principal era não engolir. Jamais. Isso só com as pessoas boas, que nem
mastigadas seriam, já que em contato com o céu da boca derretiam-se e eram
dessuavemente (ab)sorvidas.
Um dia, sem
pensar nem avisar, ele engoliu uma pessoa má. E, pra seu espanto, foi como
comer manga com leite ou tomar banho depois de comer. Como viver com tão
macabra descoberta?
Escolheu desviver,
regurgitando dia a dia cada uma das pessoas boas e aspirando em cada canto a pessoa
má que cuspira.
Meu céu
Um céu hoje sem estrelas
Sem luar
Sem romance
Um céu hoje com nuvens
Com chuva
Com pesar
Mas o estranho calor desse céu
Fechado, sem luz, mudo
Insinua ser meu
E, por mim engolido,
Me consome.
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