domingo, 28 de junho de 2020

Uma eus

               
                Inspirado por Conceição Evaristo e Oswaldo de Camargo

Catita, a escrivinhadora,
Cátia Luciana, a professora,
Cátia Luciana Pereira.

A última nasceu primeiro, 
no último dia de 1973,
uma irônica última segunda-feira.
As duas primeiras nasceram aos 12 anos.
A professora, diplomada pela academia em 1992;
ainda expecta reconhecimento.
A escrivinhadora, deliberada pela de 1973 só em 2000,
publica - ato político - só em 2015.

No batente da faxina à palestra,
no metrô-lotação-sala de aula,
nas palavras lidas, 
reviradas, 
escrivinhadas,
a preta Cátia Luciana Pereira alimenta um único desejo:
chamem cada eu pelo que sou.

Catita, 27 de junho de 2020.

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Sangue O-

                 (Para JI e todos os seres amáveis)

Se eu pudesse, abriria meu coração
Com a precisão do bisturi
Para extrair a porção suficiente de amor
Que enxertaria no seu corpo
No lugar exato em que suas
artérias e veias e válvulas e ventrículos e átrios
se entendessem
Tretassem com seu cérebro
Nutrissem seu peito
E fizessem você despertar
Para o seu amor por você.

Mas não tenho esse poder.
E talvez o lance seja mesmo não ter!
Posso te chamar pra um café
Posso te fazer um bolo
Posso escrever um poema bobo, com propositais erros de gramática
Posso caminhar contigo no parque
Posso admirar sua beleza
Posso te beijar se a vontade for mútua
Posso apenas te ouvir,
Ouvir seu silêncio,
Abraçar o amor
que em você não vingou. Ainda.

terça-feira, 20 de agosto de 2019

Doente



Tem doente
Que não é de gripe
Nem câncer
Nem depressão.

Tem doente do coração.
Não o coração com válvulas, átrios, ventrículos
O coração figurado: amargo.

Tem doente da cabeça.
Não a mente
Nem o psico ou o lógico
Pois que loucura se lauda
Tem remédio ou aceitação.
A cabeça transtornada: antiempática.

Tem doente da alma.
Não a filosófica
Nem a religiosa
Pois que (se) buscam.
A alma ausente: cruel.

Tem doente das mãos.
Não o tato
Nem a circulação
Nem o polegar opositor.
A mão dominante: do poder.

Tem doente morrendo
Todo dia.
Tem doente matando
Todo dia.
Com ou sem causa,
De um ou de outro,
Uma só consequência.

Tem doente
todo dia.
Tem cura
algum dia.

domingo, 31 de março de 2019

Céu urbano


Fios de energia
Elétrica
Acima de nossas cabeças
Fora do alcance das mãos

Azul
Divino
Acima de nossas cabeças
Transborda
A plenitude do peito.

31-03-2019, para J.A.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Hoje

O que sonhavas aos 6 anos, preta?

Hoje é um bom dia
Para estar viva

Para perceber que estou viva
Para agradecer por estar viva
Para lutar pra continuar viva

Talvez não seja um bom dia
Para viver
Com consciência
               do mundo
               das coisas
               das gentes
               dos deveres
               dos direitos

Mas indomável e sedutora
A vida me toma e me basta.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Tranças


Meu crespo grisalho farto
As vozes das minhas de antes
Na minha boca de hoje

As histórias de ontem
Agora nas mãos retintas dela
A trançadeira

Eu velha, ela jovem
Em igual mapa capilar
Que afronta,
quando só se queria brincar.

Quem nos quer trancadas
Não sabe que trançadas
Bastamos
Tais coroas brilhantes ao sol
Reluzentes às luas.

Baobás tocando os céus
Raízes profundas.

Sementes a vingar.

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

4 de outubro


Já faz um ano de nossa despedida
Envolta em dor, dúvida e angústia
Agora seguimos, juntos,
Nós três com saudade de nós quatro.

Podia você miar atrás da porta?
Insistir no pedido de papinha?
Escrever com meu teclado em sua língua felina?
Raspar o tapete e sair fugido?
Ronronar no meu colo?
Embalados por sua memória-presente, vivemos.

domingo, 30 de setembro de 2018

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Na raça


                        (Inspirado por Miriam Alves)

Cada minuto conta
Cada segundo contra
Monotema
Que o agora é sempre

Que corrente pesa mais?
Ferro?
Cárcere?
Social?
Psico soma o quê?

Quem dera fosse minha cabeça:
Resolvo,
Esqueço,
Nunca existiu.

Fibromialgia não é poesia
Nem rima com crônica
Só é dor
Persistente
Tal a notícia diária:
Mais um
Mais uma
Tudo Negro:
Em prisão
Em humilhação
Na surra
Na morte
Fora da fila da escolha
Fora da lista da escola

E se fura a estatística,
Palmas ao mérito,
Troféu e exemplo único:
"Basta querer".

Não quero essas palmas
Esse sorriso pérfido
Esse elogio quando eu doce
Ao eu-ser fora da curva.

Sou pelo povo preto
Que me trouxe
    me é
    me virá

Cada minuto conta
Cada segundo contra.

Canso. Quero dormir. Preciso.
Mas não paro
Se mais um
Se mais uma
Tudo Negro
Ainda tomba.

E levanto-nos
Pela vida negra
          de aqui      de agora
Que seguro pela mão
De entidade.

domingo, 3 de junho de 2018

Poema sem Luz



Sombras sobre a história
Recuperada pela restauração 
- ainda não -
Até nova destruição
Pelas mãos do descaso
O mesmo que
No entorno do museu
Apaga a olhos nus
- dessensibilizados -
Vidas muitas,
Estatísticas
do jornal de ontem.

Catita, 02-06-2018

domingo, 13 de maio de 2018

13 de maio


Hoje é um domingo como alguns outros anos que todos nós já tivemos, mas eu e meus irmãos vivemos de modo mais marcante. 13 de maio para nós é uma data muitas vezes tripla: dia da Abolição da Escravatura no Brasil (1888), dia das mães (sempre que cai no segundo domingo de maio) e aniversário da Tina, a tiavó que nos criou (nascida em 1925). Três datas que hoje – algumas desde antes - são incômodas.

Da Abolição

Não sei o Sandro, mas a Fabiana e eu tivemos, cada uma em seu momento, crises agudas com a escola e a maldita “comemoração” do 13 de maio. Todo ano do primário (hoje Fundamental I), invariavelmente, tínhamos de pintar um desenho mimeografado, sim, já passamos todos dos quarenta, somos da época daquele álcool inebriante na sala de aula e raríssimas folhas em branco para desenhar e pintar o que quiséssemos à mão livre. Na embriagada folha, empoçada às vezes, bem mal feita, mas centralizada, a figura de um escravo liberto. O corpo desnudo obrigatoriamente devia ser pintado de marrom, pois o preto encobria os demais traços do desenho e as professoras diziam que “não dá pra ver nada se pintar de preto”. Também não dava para pintar de “cor da pele”... Pele das bonecas, das figurinhas, das crianças dos filmes, das pessoas das novelas, das crianças fora da família. O farrapo de calça deveria ficar branco, no máximo um amarelinho, marrom pintado com pouca pressão dos dedos ou acinzentado, feito com pó do grafite do lápis de escrever circulado cuidadosamente pela pontinha do dedo indicador, afinal, não tinha cinza na caixa de 12 cores do lápis de cor. Tudo porque precisava aparentar sujeira e miséria, já que as roupas eram feitas de sacos e eles, os escravos, viviam em péssimas condições. Não tinha chãozinho, nenhuma graminha ou florzinha colorida sequer, um céu azul e sol poderia ser até sugerido pelas cores, mas não estavam desenhados, então “você não está pintando certo” (lembro de, pelo menos uma vez, ter feito a chuva). Não tinha cenário ao fundo, no máximo a corrente partida, muitas vezes em plano maior que o escravo, com a data e a nomeação, que eu contornava de canetinha vermelha, que eu não emprestava para nenhum bruto calcador de ponta, descuidado com a caneta alheia, a qual deveria durar o ano letivo todo. Vagamente lembro de ter o nome ou o rosto da tal princesa salvadora no canto da folha. Quando comparava a outras datas, outros desenhos, tudo isso incomodava bastante, mas nada nada nada era mais irritante que o cabelo: a brilhante, batida e ofensiva ideia das professoras era colar bombril no topo da cabeça do escravo. Claro, cabelo de preto é duro feito palha de aço, nenhum material melhor a representá-lo. Era só olhar para as minhas tranças, tocar nelas que eu perceberia como a fibra era áspera, rebelde, tal o bombril. Não podia ser uma lãzinha preta não, professora? Eu sabia fazer os rolinhos... Nós e alguns poucos amigos negros tínhamos de viver essa maravilha todo santo 13 de maio! Poucos, pois embora tenha estudado na escola pública a vida toda, num tempo em que ainda havia certa qualidade, poucos eram os negros que a frequentavam e quanto mais eu avançava nos estudos, menos via meus iguais “de cor”, como ainda éramos designados. Sempre desconfiei daquela história que era contada nos livros, do quanto tinha de agradecer à tal princesa, do quanto os escravos isso, os escravos aquilo. Os escravos. Os negros, os pretos, é conceito ressignificado – fora do espaço doméstico – muito muito tardio.
Hoje, 13 de maio de 2018, já lá vão 130 anos de Abolição.  E nós pretos, nós negros seguimos na luta ainda para sobreviver. Se não há avanços? Sim, muitos. Mas quanto tempo e consciência também dos não-negros ainda são necessários para deixarmos de ver retrocessos todo dia, nas escolas, nas ruas, nas conversas de bar, nas artes, na mídia, nas notícias, nas universidades, no trabalho, nas lojas, na política...? Quantos de nós ainda tentarão invisibilizar? Quantos de nós tentarão ainda silenciar? A quantos forem, vamos mostrar e gritar que estamos aqui, em pé, juntos. E seguindo.

Do Dia das Mães

Naquele tempo e ainda hoje em muitas escolas se comemora o dia das mães, desde apenas com uma “lembrancinha” feita pelo aluno, geralmente com uma pequena contribuição da família para o material usado, até com uma festinha, dancinhas, musiquinhas, decoração e presença das mães no recinto. Pois bem, eu e meus irmãos tivemos sempre de explicar que não tínhamos mãe. Os olhos da professora e de alguns dos coleguinhas se esbugalhavam, como se tivéssemos dito alguma blasfêmia. E como ficar pior? Bastava dizer que ela morreu quando eu era bem pequena. Meu irmão tinha só 21 dias de nascido. Aí as expressões se entristeciam e o inevitável “coitadinha” vinha. Mas isso não surtia qualquer mudança no desenho mimeografado com a palavra “mãe” ou “mãezinha” inscrita. Palavra que eu nunca disse. Tina sempre fez questão de contar nossa história, de deixar claro que não era nossa mãe, que era tia do nosso pai, a quem ajudou a criar e que cedo casou, mas cedíssimo enviuvou. Para manter a família unida, reza a lenda, Tina “pegou os quatro de volta” e terminou de criar todo mundo, somando na casa o salário de empregada doméstica dela e o de metalúrgico do meu pai. E todo dia operando o milagre da divisão, raras vezes o da multiplicação e sempre convivendo com o fantasma da subtração. Cada um de nós teve de aprender a lidar com essa falta, com essa ausência praticamente sem ter sido presença, da mãe Terezinha, cujas poucas histórias eram contadas mais pela Tina que pelo pai ou talvez até mais pelo quadro na parede, a nos lembrar sua cor, seu sorriso, seus cabelos, seus sonhos, sua roupa anos 1970! As lembrancinhas da escola iam para a Tina, claro, mas eu quase sempre fazia um bilhetinho à parte, em que podia escrever “Tina” bem bonito e agradecer de forma mais eu que as trinta e poucas, quarenta lembrancinhas iguais da escola.
Hoje, faz 19 anos que não tem bilhetinho, nem presente, nem flores, nem almoço especial, nem mesmo um telefonema para a Tina. Se eu estivesse na escola e fizessem a festinha, teria de relatar agora duas mortes. Consola que em minhas preces e atos elas estão presentes, às vezes mais uma que outra, mas gratidão igual às duas por realmente darem a vida por mim e pelos meus irmãos. Nas preces e nos atos também a defesa para que a escola seja realmente um espaço de acolhimento, não de exclusão, que não “comemore” de forma tão impensada tantas datas, desconsiderando as diversidades todas existentes, as histórias pessoais já suficientes para quebrar o padrão, do que “é normal”, do “sempre foi assim”, de que o diferente supera, “a gente é forte”. A custa de quê, de quanto?

Do aniversário

    Acho que essa era a única data que realmente importava! Não tinha intervenção da escola, embora bastante impedimento financeiro. Não me lembro de dar presente para Tina quando criança, possivelmente porque era o pai que comprava e nós dávamos juntos. A memória da família é a Fabiana, estou até ouvindo-a dizer “mas como você não lembra, irmã?”. Eu lembro de adolescente, já trabalhando em escola infantil, de comprar um corte de tecido, uma “fazenda” como se dizia, para eu fazer ou mandar fazer vestido para ela. Era um presente que gostávamos de trocar. Ou eu tricotava uma touca ou cachecol para ela. Mas o que não esqueço mesmo é de me ver escrevendo sempre para ela, desde criança. “Que tanto você escrivinha aí, menina?” “Sabe que escrivinhar não existe, né? É escrever. Nunca deixe de estudar”.
Hoje não tenho certeza se isso é memória vivida ou criada, mas que a ouço dizendo, ouço! Mesmo jovem, quando “a faculdade virou” minha cabeça! E há dezenove anos não tem presente, nem fazenda, nem carta. Mas, relatados também pelo caçula, tem angústia, aperto no peito, dor de barriga, insônia, vontade de chorar... Uma semana antes do dia 13 de maio. Que passa, quando o escrivinhado fica pronto.

13 de maio de 2018, da série “Tirem as vendas, senhores”.

sábado, 3 de março de 2018

Choro vicioso


Para uns, desequilíbrio
Para outros, sensibilidade
Para mim, nada de rótulos
Só preciso dizer que chorei hoje.

Chorei quando a chuva caiu
Chorei junto com a chuva
O porquê não me veio
Ou umedeceu meu crespo

Escorreu

Não pude segurar
Há tempos não entendo.
Ou entendo.
Por isso eu choro?
E chorar é ceder?
É ser fraca?

Engolir o choro queima
Estrangula a alma.

Quando o choro finda,
Me sinto mais forte.

Mentira, fico puta.

Catita, 02-03-2018 (da série “Ciclos”)

Ciclo vicioso



As palavras perturbam na mente, cutucam a língua, querem sair.
Mas as mãos estão ocupadas escrevendo as prioridades da vida prática, enquanto o coração se aperta sem entender o que são prioridades e vida prática.
E o peito sangra, chora por não ter dedos.
E a cervical sente a autocobrança da autopromessa de não mais negligenciar os escrivinhados.
Não consigo engolir nada.
E as palavras perturbam na mente, cutucam a língua, querem sair.

Catita, 24-02-2018, no conflito de seus eus em sis.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Enfrentar o(s) monstro(s) cotidiano(s)

Ao pegar o Cadernos Negros, v40, para fazer a croniresenheta da semana, eu me dei conta de que não tenho um critério de escolha do conto a ser lido. (E agora vocês se dão conta de que a proposta é escrever uma por semana – quinzena? -, se tudo der certo!) Li primeiramente os da Mari Vieira, pois dos 42 autores e autoras, ela é a única com quem tenho vínculo de amizade fora do mundo virtual. Passei os olhos pelo sumário – os títulos sempre me atraem - , folheei a minibiografia dos autores, mas acabei abrindo o livro tal fazia com o Minutos de Sabedoria que ganhei da Tina: segundos de silêncio, respiração profunda e abertura de sopetão, para ler na página que cair. “Caiu” em “Arial Black”, de Adilson Augusto.

O conto abre com duas frases bem curtas que possivelmente já tenhamos usado em algum momento da vida e desmentido em outros inúmeros: “Raramente mudo. Difícil mudar”. Mas antes que entremos em uma reflexão existencial ou psicológica, o próprio narrador nos chama à Terra novamente: “Sigo o meu cotidiano. Ele é muito duro. Pintar paredes exige paciência.” E segue uma descrição minuciosa, pictórica mesmo, sobre esse ofício. Você se encanta e, antes mesmo de terminar o parágrafo, divaga e se encaixa em um dos possíveis três grupos de pessoas: as que nunca pintaram uma parede, as que uma ou outra vez na vida fizeram isso e as que o fazem todos os dias. Meu profundo desejo – utopia? -  é que esse último possa ter mais acesso à leitura, ou melhor, que possa ter tido o direito de aprender a ler e que tenha a oportunidade de poder ler o que queira.    
Novamente o narrador-protagonista nos tira da digressão, corta a rotina e insere uma jovem personagem, de maneira inusitada, quase non-sense, não fôssemos nós conhecedores dos adolescentes em geral. Mas nossa adolescente, vizinha da reforma em que nosso pintor trabalhava, não estava ali apenas para ajudar, e entre ímpetos e rodeios tipicamente misturados, ela indaga sobre o pai. Sobre o sumiço do pai. Sobre o por quê. E porque Adilson Augusto constrói uma aura de mistério pelo tripé pensamento-sentimento de surpresa do pintor, monólogo fuga do tema da garota e ação mecânica-incômoda da pintura da parede ali presente, você divaga, caro leitor, já alimentando uma certa raiva por mais um caso de ausência paterna, como tantos que temos na vida real, que nos indignam independente do momento desse abandono. E nós começamos a pensar em quanto essa mãe deve ter sido forte para cuidar da cria sozinha, no quanto ele deve ter sido canalha ao não pagar a pensão, no sofrimento que causou a todos os envolvidos. Se você for uma cara leitora, é provável que tenha o grau de indignação aumentado. Sem querer polemizar, caro leitor, mas já ouvimos muito (sentimos?) sobre uma certa parceria ou “solidariedade” masculina cuja identificação com histórias assim se constrói negativamente, sob defensiva. E desculpas frágeis. Injustificáveis.
Mas se o incômodo já está grande, desculpe o dissabor ainda maior... Tal lixa d’água em ação, sendo a parede o nosso rosto, revela-se que o mistério sobre o sumiço do pai da garota, amigo de nosso pintor, envolve uma quase certeza de ser o progenitor um abusador. Confesso que tive de parar um pouco a leitura, Adilson, como paro todas as vezes em que leio ou ouço uma notícia sobre estupro. Todas as vezes. Todos os dias. O que é divulgado, né? Os índices oficiais de 2014 mostram que no Brasil a cada 11 minutos ocorre um estupro. A maioria das vítimas têm até 19 anos. A maior parte, vulnerável. Mas se especula que seja muito mais, pois muitos casos não são notificados, denunciados, sabidos. Abuso sexual, estupro, essas palavras me paralisam por segundos. Me indignam sempre. Me enojam. É a vida de mulheres, muitas delas crianças, destruída definitivamente, quando “seguido de morte”, ou com sequelas que nenhuma “superação” apaga.
Antes de começar a ler o conto, eu havia acabado de saber do caso mais recente, amplamente divulgado porque uma câmera de rua registrou a espreita do estuprador, sua agressividade com a vítima de 19 anos, levada à força para o banco de trás do carro e tendo uma arma apontada para sua cabeça por aproximadamente longos 30 minutos. Logo pensei em coincidência ler o texto justamente nesse dia. Mas a Tina diria que coincidências são mensagens que nos chegam por outros caminhos, o difícil é interpretar. Tina trazia em sua bolsa um alfinete grande, desses de fralda, preso e envolto discretamente num paninho. Incomodada por algum idiota no transporte público, ela não tinha dúvida: sacava sua arma e alfinetava a parte que lhe tivesse ao alcance. Ela disse que não teve de usar muitas vezes, mas em todas os caras saíram de perto dela, sempre sem dizer uma só palavra, mas alguns lhe lançavam um olhar de ódio. Tina ensinou isso, técnica que usava desde jovem, logo que “tomei corpo”, lá pela segunda metade dos anos 1980. Queria muito saber o que ela diria hoje, nos 2018...
Refeita um pouco pelo conforto da lembrança de Tina, retomo a leitura e me dói mais essa nova lente, direcionada às vítimas “indiretas” desse pai nosso sumido: a esposa e a filha, essa jovem que parece querer construir outra história sobre seu pai, uma que não a atormente. Uma que a deixe seguir sua vida. Amar sem medo. Sem essa nebulosa sobre seu passado. Sobre os homens. Mas como ignorar a revelação-faca de nosso amigo pintor “Teu pai cometeu um crime.”? Como lidar? Como continuar pintando a parede? Não sei. Só posso dizer que, diferente do nosso amigo pintor, a gente muda sim.
A primeira vez que um homem desconhecido me exibiu seu membro fálico sem meu consentimento num lugar público foi numa tarde rotineira de estudos no Centro Cultural São Paulo, na Vergueiro, na adolescência. Eu fiquei primeiro sem ação alguma, só havia olhado para ele na mesa ao lado, pois, segurando o livro na mão, ele tinha feito alguma pergunta que eu não entendi direito. Só consegui juntar minhas coisas e mudar de lugar. Fiquei por ali um tempo, calculando qual seria o melhor momento de ir embora. Pensei em falar para a funcionária da hemeroteca, mas não consegui. A vez mais recente, queria dizer a última, mas seria ingenuidade minha, foi em 2016, já adulta, numa manhã de domingo no Parque da Mooca, enquanto corrigia redações na grama. Ele já havia passado de um lado para o outro, com sua bicicleta, se alongava numa das árvores próximas, parecia-me, quando perguntou as horas. Se os rostos não são conhecidos num parque, a aura do espaço é de tranquilidade. Levantei meu rosto para lhe dizer as horas, quando ele prontamente pôs seu membro pra fora. Mas dessa vez eu gritei, ele fugiu correndo, eu contei a tantas pessoas quanto eu pude. A gente muda sim, se fortalece. Só o nojo é o mesmo.

Cadernos Negros, volume 40: contos afro-brasileiros. Organizadores Esmeralda Ribeiro, Márcio Barbosa. São Paulo: Quilombhoje, 2017, p. 31-35.


Catita, 27 de janeiro de 2018, croniresenheta (2) do conto de Adilson Augusto: "Arial Black".

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Memórias e desejos


Você ouve histórias de seus pais e outros familiares quando criança e muita coisa fica registrada, nem sempre lembrada. Mas às vezes há um gatilho que as aciona. Você, se teve esse direito garantido, vai à escola, aprende um pouco de tudo, se encanta por algum conhecimento, e esse ou outros acabam virando sua profissão ou se tornam seu desejo a perseguir. Quando eu ouvia na escola sobre poetas e escritores - muito mais "os" do que "as" sempre -, ficava imaginando o longínquo desejo de também viver essa "fraternidade literária", de conhecer e conviver com escritores, ousando ser uma deles. As falas dos pais, realistas (ou duras?), mas pra nos dar casca a aguentar os trancos do mundo, ecoam um "nem sempre você realiza seu desejo, muito menos como ou quando quer". 

     Mas e quando a gente consegue? Ainda que não como pensou, nem quando, porém mesmo assim de uma forma linda? Esse é o momento aqui-agora-meu-nosso: conheço poetas, escritores e escritoras (muuuuitas), algumas com maior ou menor intimidade, e "me aceitei" como escrivinhadora também, bem mais tarde que muitas das que conheço hoje, mas com igual vontade de deixar um pouco do nosso ser-olhar-sentir nesse mundo em forma de palavra. E no meu caso específico e no de alguns desses e dessas, somos pretos. Somos pretos e pretas que escrevem. Não sei se você pode ter a dimensão do que seja isso: muitos de nós não só suplantamos as adversidades pelas quais passamos (antes e ainda agora), nós demos mais um salto, nós escrevemos e nós estamos publicando. É nosso ato. Político e vital. Por favor, só não festejem dizendo que "o mérito é todo nosso", pois isso não nos é elogio. 

Dia 16 de dezembro de 2017 é uma data histórica, pois fora lançado o volume 40 dos Cadernos Negros, com contos de 42 escritoras e escritores negros. "Volume", no caso, significa "ano", senhores: quarenta, assim, por extenso, quaaa-reeen-ta anos de publicação de contos e poemas de autoria negra. Você pode nunca ter ouvido falar, mas não pode mais dizer ou aceitar que digam que há poucos escritos de pretos e pretas. Os textos podem não ter chegado a você. Por quê? Tente responder. É meu convite sempre e agora de novo a partir dessa minha primeira "croniresenheta". Aquele 16-12-2017 foi uma festa só e entre alguns nomes conhecidos de outros volumes, dos saraus e da internet, estava o da amiga Mari Vieira. Amiga por acaso, desde maio de 2017, por ocasião de uma das atividades da Ocupação Conceição Evaristo no Itaú Cultural em São Paulo. Foi amizade à primeira vista, por razões que só mais tarde fomos descobrindo e ainda haverá muitas, eu sinto. Desde então, fomos juntas à memorável Flip 2017, tivemos outros encontros, menos do que gostaríamos (ambas professoras), trocamos mensagens com frequência, indicações de chamada pra publicação. Nós nos apoiamos, nos fortalecemos, como fôssemos amigas de infância. Ficamos perplexas, angustiadas ou raivosas com certos episódios. E nos movemos. Seguimos.

Por acaso do destino, pra quem acredita que seja acaso, só hoje li os contos da Mari. Aqui em Paraty, no meio do mato, ao som dos passarinhos e das crianças correndo. "Fia, a Mãe e a Avó" começa com a cena do abacateiro e a apresentação de Idalina, a Fia, já em seu instigante encantamento. Na minha segunda casa da infância havia um abacateiro, palco e personagem de muitas histórias. Como não se identificar com a escrita da amiga, não pela amizade só, o que já é muito, mas com a infância que ela me traz à tona no primeiro parágrafo? Ah, você não teve um abacateiro em seu quintal... Sinto muito. Mesmo. Sem ironia.

Fia e as amigas vão tomar banho de rio e de novo as memórias de infância me arrebatam. Não, não vivi em mim essa situação, na periferia da ZN de Sampa havia cipó e chão de terra, mas não rio. Vivi pelas histórias da Tina, de seu nascimento mineiro e vivência no interior de São Paulo. E Mari é o quê? Mineira dos "longínquos cantos do Vale do Jequitinhonha", como está em sua minibiografia inscrita no livro.

Estivéssemos em aula agora, qual resumo do conto? "Fia, preta retinta de tranças, toma banho de rio com as amigas." Engano parar nesse superficial resumo, pois desse mote-cena, o cerne são as memórias de Fia, sobre sua mãe e sua avó, rica e sensivelmente construídas na narrativa, na natureza daquele rio, pedras e abacateiro que as corporificam e as unem a Fia. Falar mais é roubar de você o encanto da leitura-construção gerada pela escrita-respiração da autora. 

"Ana Horizonte" já começa deixando você na curiosidade pelo título... Um texto com nome de nome próprio sempre instiga: quem é que eu vou conhecer agora? Quem que teve a chance de ler apagou da mente nomes como Hamlet, Augusto Matraga, Ponciá Vicêncio ou Ana Davenga? Pra ficar nos que me lembro assim de pronto, sem dar um Google! Pois o horizonte de Ana, da Mari Vieira, é polissêmico. É de sua cidade natal, mas também de sua estratégia para lidar na infância com um pai fumaça e também o é da vida que escolheu - ou que lhe foi possível - como empregada doméstica, esposa e mãe, em outra cidade, longe ainda mais. A relação de Ana com a patroa me remete de novo às histórias da Tina, os detalhes que diferenciavam as patroas boas das más, a gratidão e a indignação nem sempre tão claras, tão separadas. Como com Fia, Ana, Tina, Mari ou Catita, passado e presente se mesclam e o futuro é um depois a ser contado à nossa escolha, como um antes ou um agora.



Cadernos Negros, volume 40: contos afro-brasileiros. Organizadores Esmeralda Ribeiro, Márcio Barbosa. São Paulo: Quilombhoje, 2017, p. 259-267.



Catita, 15 de janeiro de 2018, croniresenheta (1) dos contos de Mari Vieira: "Fia, a Mãe e a Avó"; "Ana Horizonte".

domingo, 31 de dezembro de 2017

Dezembro

Todo dezembro a Tina me leva para uma igreja, seja para assistir a uma missa ou não, sem que eu me planeje: quando vejo, estou dentro do templo. Às vezes só para ficar lá um pouco, ajoelhar, rezar, sentar. Lembrar, chorar, agradecer, pedir. Olhar, chorar mais um pouco, me recompor. Fazer o sinal da cruz em genuflexão e sair.

Ela sabe que não vou sempre, às vezes quase nunca, embora reze praticamente todas as manhãs, menos naquelas em que estou atrasada. Rezo daquele meu jeito que as catequistas que tiveram a felicidade de serem minhas professoras adoram: em qualquer lugar, sem seguir os scripts das preces (embora eu saiba quase todas e tenha toda a liturgia da missa na ponta da língua) e sem linguagem solene. A maior heresia da preta pré-adolescente foi ter a petulância de dizer que se Ele está em todo lugar, por que não posso rezar pra Ele quando estou no banheiro? Com certeza isso chegou esbravejado aos ouvidos da Tina, mas não me lembro de nenhuma reprimenda, lembro antes de comprarmos velas – eu queria de todas as cores sempre, mais para admirar que para usar – e acendermos em algum canto no alto da parede de tijolo à vista ou do quintal, dependia da ocasião, mas quase sempre com um copo d’água do lado, um pires com papeizinhos, mel, açúcar, às vezes fitas coloridas... Vez ou outra uma imagem de um santo católico ou de um guia da Umbanda era também iluminada por aquela pequena chama. Invariavelmente, Tina rezava. Acredito que todos os dias. Serena, mas concentrada, firme. Ritual silencioso quase sempre, vez ou outra cantarolado com um ponto, um canto ou uma melodia qualquer que eu não distinguia, porém me acompanhava o dia todo. Dentro da minha cabeça.
Todo dezembro, a Tina me leva para uma igreja. Ela sabe que aquela menina tímida, receosa, medrosa até de brincar na rua, que preferia ficar enfiada nos livros, era bocuda quando o assunto era religião. São muitas as situações em que retrucava com alguém da igreja, uma lista quase interminável, mas centrada nos usos e costumes. De que adianta ouvir a homilia do padre e na saída da missa xingar a criança “de rua” que está na porta da igreja, às vezes só sentada, brincando? O que tem a ver a roupa que uso para ir à igreja? Foi Jesus que disse o que pode e o que não pode? Quem, como, quando entra na igreja? Tá escrito na bíblia onde? Não era diferente no Centro da madrinha Avelina lá no Itaim Paulista. Por que algumas pessoas fingem que estão incorporadas? Acham que a gente é besta mesmo? Ela não veio aqui pedir ajuda? Por que trata tão mal as pessoas daqui? Por que criança não pode ficar nessa gira mesmo? E mesmo quando silenciava na presença das pessoas, não fechava a boca em casa e lá ia a Tina explicar uma passagem da bíblia, o ritual de alguma entidade e a função da cambone. Quase sempre com paciência e outras tantas com o encerra-papo “você vai entender melhor quando crescer”.  
Todo dezembro a Tina me leva para uma igreja. Ela sabe que nunca gostei daquelas imagens, embora adore as histórias dos santos e santas, menos pela santidade em si, mais pela humanidade desses seres, pela curiosidade de quem diz que são santos e por que cargas d’água o são! As imagens doridas sempre me assombraram, aquele Jesus pregado, ensanguentado...eu ficava triste. E o “Ele morreu para nos salvar” me soava como Ele está lá por nossa culpa (minha?). Como ser feliz com Ele assim? Então eu preferia conversar com Ele de boa, na minha “língua”, sentado do meu lado na cama mais alta da treliche, balançando as perninhas no ar, ou tentando entender o que eu falava enquanto escovava os dentes com água esquentada na canequinha nos dias mais frios. Com as entidades era mais difícil, porque eu pouco entendia o que os caboclos falavam... Então eu preferia imaginar, mas no dia da gira tinha medo de algum deles me confrontar e brigar com os meus pensamentos.
Mas todo dezembro Tina me leva para uma igreja. Apesar de todas as minhas críticas infanto-eternas, sempre me sinto bem lá dentro. Nem sei se “bem” é o advérbio certo. Sempre choro, primeiro de horror pelas atrocidades que fizeram "em nome de Deus", descortinadas na escola, na literatura. Depois choro de dor pelas perdas, afinal, mesmo entendendo pela umbanda que há outro plano iluminado para as almas com quem um dia reencontraremos, aceitar que o corpo se vá e eu não mais escute sua voz é sempre muito difícil. Nem Ele nem Elas me explicaram isso, de maneira convincente. Só a Ciência (falência dos órgãos, complicação da cirurgia, doença incurável) ou a Razão-Acaso-Descaso (batida em alta velocidade, raio, deslizamento de terra). Difícil se conformar com o “esse é o caminho natural” ou o sarcástico mal gosto “para morrer basta estar vivo”. Quando o choro cessa, rememoro o ano e agradeço por tudo, até os momentos ruins, que me fizeram aprender alguma coisa e crescer, de algum modo, mesmo que eu ainda não saiba qual é. Em seguida listo todos os nomes que estiveram presentes nas minhas preces matinais, todos e todas que precisaram de ajuda com algum conflito ou crise familiar, financeira, amorosa, de trabalho, de saúde, existencial. Aproveito e peço pela saúde de nossos médicos e psicólogos, que precisam de lucidez pra cuidar da gente. E peço por todos e todas poetas, todas as escritoras e os escritores, que pelas palavras (re)constroem esses nossos mundos reais e imaginários. Por fim volto a chorar de plenitude, que não sei explicar de onde nem por quê. Faço o sinal da cruz em genuflexão e saio. Todo dezembro. Com a Tina.

31 de Dezembro de 2017, da série “Ciclos”.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Voz

Não sei se a chuva, o cansaço ou o frio
Não há data comemorativa ou pesarosa
Não sei se a reflexão do cotidiano, a perplexidade com a política, a instabilidade da vida
Não sei se o curso que queria fazer, se a crônica que estava sendo gerada na cabeça, se as provas já em fila a corrigir, se a notícia da exposição comemorativa e gratuita do Museu Afro-Brasil, se a capulana nova - na combinação marrom e amarelo que ela amava – que vai virar uma saia quando eu tiver tempo pra costurar

Só sei que hoje eu ouvi a voz da Tina.

Não essa voz que a gente constrói no imaginário
Para fixar na memória aquele ente querido
Não aquela voz que a gente cria ao ver as fotos antigas
Não as palavras dela que ressoam em mim e espalho por aí para mantê-la como viva
Não o ensinamento dela que reconheço em mim ao estar com o Cauã ou a Rayane, a continuação da nossa família pelos ventres fraternos

Foi a voz da Tina que ouvi hoje.
Nítida.
Por nanomilésimos de segundos.
No meu ouvido.
Dentro da minha cabeça.

Eu queria saber a razão.
Para conseguir fazer isso de novo.
Será que fui eu que fiz?
Queria esse poder.
Precisava.

Seria o mantra (ponto?) do feminismo negro?
“Não estou sozinha”.
“Trago comigo todas as minhas ancestrais.”
A Tina foi a preta velha, a sábia matriarca marcada em mim.

O que falou pra mim?
Sua voz durou tão pouco hoje, que não consegui gravar as palavras, Tina.
Sabe quando eu acordava e não conseguia contar o sonho, ele me escapava, mas a sensação dele ficava?
Lembra, Tina? Assim foi sua voz agora. Depois de tantos anos...
E foi tão inesperado
Não consegui segurar na minha cabeça
Não consegui ouvir de novo.

Não consegui.

Eu sempre falo com você, desculpe, com a senhora, mas é um monólogo.
No máximo um diálogo imaginado.
Mas hoje foi sua voz mesmo, sabe, Tina?

Nítida.
Do meu lado.
Com seu sorriso.

Sua voz, Tina.

E meu choro escondido
Porque estou trabalhando, Tina.

Tina com o Sandro no colo, eu me escorando e a Fabiana na frente. Como eu me lembro desse vestido...